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Ética, ciência e epistemologia

A APF – Associação de Professores de Filosofia e a SPF – Sociedade Portuguesa de Filosofia organizam o Encontro Nacional de Filosofia, a decorrer nos dias 16 e 23 de outubro de 2021, em formato não presencial.

Sob o formato de congresso, o Encontro está acreditado para efeitos da carreira docente. Veja as condições desta modalidade infra.

 

PROGRAMA

Dia 16 de outubro de 2021 | Vídeoconferência

09h00 – Boas-vindas

09h15 – O que é e o que não é ciência, por Carlos Fiolhais (Universidade de Coimbra)

10h15 – Após Kuhn, novas veredas da Filosofia da Ciência, por Artur Galvão (Universidade Católica)

11h15 – Intervalo

11h30 – A responsabilidade moral do professor no ensino da Filosofia da Ciência, por João Carlos Silva (Escola Secundária Jorge Peixinho)

12h15 – Hume e a indução, por Faustino Vaz (Escola Secundária Manuel Laranjeira)

 

Dia 23 de outubro de 2021 | Vídeoconferência

09h00 – O que falta e o que sobra de Filosofia da Ciência no Secundário, por Fernando Rua (Escola Secundária António Arroio)

09h45 – Realismo e anti-realismo em ciência e em matemática, por Eduardo Castro (Universidade da Beira Interior)

10h45 – Intervalo

11h00 – E se os termos vagos tivessem mesmo fronteiras exatas?, por Ricardo Santos (Universidade de Lisboa)

12h00 – The challenges to enquiry: a different focus in epistemolog, por A. C. Grayling

12h45 – Encerramento dos trabalhos

Documentação

A todos os participantes, independentemente de solicitarem, ou não, a frequência da formação para acreditação (estatuto da carreira docente para profissionais no ensino não superior português), serão enviados certificados de participação, documentação do Encontro e a oferta de um livro de filosofia

 

Mais informação

Artur Galvão é professor Assistente Convidado na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa (Braga). Leciona as unidades curriculares de Epistemologia, Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem, Lógica Informal e Argumentação e Investigação Orientada 1 e 2. Leciona/ou múltiplas unidades opcionais e seminários em áreas como Filosofia e o Amor, Filosofia no Cinema, Teorias da Racionalidade, Filosofia da Mente e Ciências Cognitivas. Tem feito pesquisa no âmbito do pragmatismo e do pensamento tomista, tendo-se especializado no pensamento filosófico de A. MacIntyre e R. Rorty. É membro do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos. É secretário da Revista Portuguesa de Filosofia. Tem organizado e participado em congressos internacionais, realizado múltiplas conferências e organizado e orientado múltiplas ações de formação de professores e de profissionais do mundo empresarial. Tem colaborado com conferências e workshops em escolas secundárias de todo o país.

 

Após Kuhn: novas veredas da Filosofia da Ciência

Thomas S. Kuhn introduziu e/ou desenvolveu uma série de viragens importantes na Filosofia da Ciência e que, em grande medida, marcaram a área a partir dos anos 60. À famosa viragem historicista, devem juntar-se igualmente as viragem naturalista e sociológica, com o consequente abandono da ideia da existência de uma racionalidade especial, além da resultante da utilização dos meios disponíveis para alcançar os objetivos desejados com a ciência. Este modelo naturalizado abriu múltiplas portas, mas conduziu, igualmente a uma série de armadilhas.

Esta comunicação dividir-se-á em duas partes: Na primeira, percorrer-se-ão sinteticamente algumas das veredas abertas por Kuhn, nomeadamente as resultantes do programa sociológico e construtivo. Na segunda, analisar-se-á criticamente a necessidade de, após Kuhn, se reconsiderarem profundamente os problemas da demarcação e do método. Defender-se-á que algumas das veredas ou atalhos escolhidos poderão redundar em maiores trabalhos para a Filosofia da Ciência e para a Imagem(ns) que a Ciência fornece.

 

 

Carlos Fiolhais nasceu em Lisboa, em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra (1978) e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, Frankfurt (1982). É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades do Brasil e EUA. É autor de mais de 60 livros pedagógicos e de divulgação científica e de numerosos artigos científicos (entre os quais o artigo mais citado de autores em Portugal), pedagógicos e de divulgação. Ganhou os Prémios: José Mariano Gago da SPA (2018), Ciência Viva-Montepio (2017), o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC (2005), a Ordem do Infante D. Henrique (2005), Inovação do Forum III Milénio (2006) e Rómulo de Carvalho da Universidade de Évora (2006). Foi diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e Coordenador da área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. É diretor do Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra e da coleção Ciência Aberta da Gradiva.

 

O que é e o que não é a ciência

Em Filosofia, o “problema da demarcação” consiste em encontrar a distinção entre ciência e não ciência. Esta questão é particularmente relevante nos dias de hoje quando muitas atividades fazem passar por ciência, sem de facto, o serem: a pseudociência está por todo o lado, incluindo muitas vezes dentro da própria ciência. Mas é também relevante conhecer a distinção entre ciência e arte ou entre ciência e religião ou entre ciência e política, de modo até a clarificar os diálogos entre essas várias dimensões humanas. Karl Popper introduziu a noção de falsificabilidade na definição do que é científico, mas são bem conhecidas as críticas que lhe fizeram Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. No meu entender, e embora o pensamento de Popper possa e deve ser revisto, são, no essencial, críticas de quem não entendeu verdadeiramente o que é a ciência. Referirei também algumas posições filosóficas mais recentes sobre o tema, como as de Paul Thagard, Larry Laudan e Ian Hacking, e a sua relação com a atual discussão sobre “notícias falsas” e “pós-verdade”.

 

C. Grayling é o fundador e diretor do New College of the Humanities na Northeastern University e seu professor de filosofia. É também Supernumerary Fellow do St Anne’s College, em Oxford. Autor de mais de 30 livros de filosofia, biografia, história das ideias e ensaios. Colunista por vários anos das revistas Guardian, Times e Prospect, contribuiu para muitos jornais importantes no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, e para as rádios BBC 4, 3 e o Serviço Mundial, para o qual fez a série anual ‘Intercâmbios na Fronteira’. Presença assídua na televisão. Juiz do Booker Prize por duas vezes, foi, em 2014, Presidente do painel de jurados. É ainda Fellow da Royal Society of Arts, Fellow da Royal Society of Literature, Vice-presidente dos Humanistas do Reino Unido, Patrono dos Humanistas de Defesa, Associado Honorário da Sociedade Secular e Patrono da Dignidade na Morte.

 

Eduardo Castro é professor Auxiliar no Departamento de Matemática da Universidade da Beira Interior. Investigador no grupo LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Porto), mestre em História e Filosofia da Ciência (Nova de Lisboa) e doutor em Filosofia (Lisboa). Desenvolve investigação nas áreas de Filosofia da Ciência e Filosofia da Matemática.

 

Realismo e anti-realismo em ciência e matemática

Revisão das principais doutrinas realistas e anti-realistas em ciência e matemática. Breve introdução sobre as noções de existência e de independência, seguida da apresentação dos argumentos principais a favor e contra as doutrinas do realismo científico, empirismo construtivo, realismo estrutural e platonismo matemático.

 

Faustino Vaz é professor de Filosofia do Agrupamento de Escolas Manuel Laranjeira. Autor de manuais escolares e de artigos de caráter didático e científico, especialmente sobre temas e autores incluídos no programa de Filosofia. Neste momento, os seus interesses filosóficos mais fortes são a epistemologia e a ética de Hume e as tradições morais e políticas liberais e utilitaristas. Uma das tarefas a que se tem dedicado com mais gosto tem sido a de avaliar como são defendidas ideias igualitárias no âmbito destas tradições. É formador e um dos autores do Dicionário Escolar de Filosofia. Tem formação especializada em Bioética e concluiu a parte curricular do doutoramento em Bioética pela Universidade Católica.

 

Hume e a indução

O tratamento da indução por Hume é complexo. Não surpreende, por isso, que tenha motivado interpretações divergentes e incompatíveis. São três as interpretações razoavelmente estabelecidas. Uma delas, conhecida como descritivista, consiste na defesa de que Hume tem simplesmente a preocupação de indicar as características psicológicas da operação mental a que chamamos indução. As outras duas destacam o caráter normativo da indução e sustentam conclusões opostas. De acordo com a interpretação cética, que goza de grande autoridade, Hume defenderia a tese negativa de que a indução não está justificada. No entanto, a interpretação a que poderíamos chamar epistémica positiva permite concluir que, afinal, Hume não é cético a respeito da indução. O seu ceticismo é bastante mais limitado: é rejeitada apenas a possibilidade de as inferências indutivas serem justificáveis por meio de argumentos. Esta interpretação merece ser atentamente considerada. Apresentando uma quantidade suficientemente expressiva de passagens do Tratado da Natureza Humana e da Investigação Sobre o Entendimento Humanoque podem ser vistas como indícios de uma perspetiva extremista da justificação, a tese de que as inferências indutivas estão justificadas adquire uma força que, dada a autoridade há muito estabelecida da interpretação cética, não se imaginaria há apenas duas ou três décadas. E caso se confronte a interpretação cética, habitualmente ensinada como se nenhuma outra existisse, com a interpretação epistémica positiva, talvez a aprendizagem do tratamento da indução por Hume seja mais interessante. Entre outras coisas, produzirá um contexto filosófico adequado às tarefas de distinguir e de debater as perspetivas internista e externista da justificação e os projetos epistemológicos de tipo cartesiano e de tipo anticartesiano.

 

Fernando Rua

O que falta e o que sobra de Filosofia da Ciência no Secundário

A filosofia da ciência em Portugal, como área especializada, só recentemente começou a ocupar o seu lugar no conjunto dos saberes filosóficos e mesmo científicos. É, pois, natural algum desfasamento entre as melhores práticas de filosofia da ciência e o que se ensina ou mesmo o que se debate publicamente neste domínio. A nossa contribuição pretende olhar para os temas dos programas do secundário e proceder ao seu exame crítico à luz da sua adequação com a literatura recente nesta área e com as necessidades de uma melhor compreensão do mundo, em particular, do universo científico.

 

Fernando B. S. Rua é natural de Pampilhosa da Serra. Fez os estudos secundários nos Maristas e no Liceu D. João de Castro, em Lisboa. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1980. Mestre em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 1996, com a tese O Paradoxo de Einstein, Podolsky e Rosen como Experiência de Pensamento, orientado pelo Professor Fernando Gil. Foi bolseiro no Departamento de Filosofia da Ciência da London School of Economics, entre 1998 e 2001. Faz parte do programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia e Sociedade, do Centro de Filosofa da Ciência da Universidade de Lisboa, estando preparar a tese “As experiências de pensamento como artefactos conceptuais.” É membro do Centro de Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa e atualmente professor do quadro da Escola Artística António Arroio. Tem participado e escrito vários artigos sobre a didática da Filosofia e também sobre os temas da sua especialidade nomeadamente sobre o Pedro Nunes, a receção da teoria da relatividade em Portugal por Gago Coutinho, a conceção do tempo e o estatuto das experiências de pensamento na ciência.

 

João Carlos Silva é licenciado em filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e professor de filosofia do ensino secundário desde 1990. Publicou até agora três livros de filosofia, dois de aforismos e reflexões (“Também Aqui Moram os Deuses” e “A Natureza das Coisas do Ponto de Vista da Eternidade”) e um de ensaios filosóficos (“Por Amor à Sabedoria”), encontrando-se em processo de conclusão de um quarto livro, também de ensaios filosóficos, cujo título provisório é “Vida Examinada”. Tem ainda vários artigos filosóficos publicados no site da LusoSofia e 43 artigos de filosofia publicados no site da Academia.edu.

 

A Responsabilidade moral do professor no ensino da Filosofia da Ciência

Será que o professor de filosofia é moralmente responsável quer quanto ao modo como ensina a sua disciplina, quer relativamente aos efeitos que pode ter junto dos alunos? Defender-se-á a tese afirmativa com argumentos filosóficos de carácter geral, que informam uma determinada conceção da filosofia e do seu ensino, assumindo uma ética de responsabilidade filosófica que seja capaz de orientar este último, potenciando os seus possíveis efeitos positivos e mitigando os seus possíveis efeitos negativos, tanto na esfera pessoal como na esfera social. Tal defesa crítica será realizada mediante a análise de um caso verídico exemplar onde essa responsabilidade pode ser particularmente evidenciada, juntamente com os riscos que lhe são inerentes, caso esta não seja devidamente acautelada. Na análise crítica do caso exemplar, verificar-se-á que uma forma epistémica e moralmente irresponsável de conceber e ensinar a filosofia, nomeadamente uma forma céptica, dogmática, niilista ou relativista, ao invés de crítica, assim como uma conceção errónea da ciência e da sua relação com a filosofia, podem ter consequências nefastas para um correto entendimento das mesmas e do seu ensino, com implicações práticas, morais, sociais e existenciais bem reais na vida daqueles a quem se procura ensinar.

 

Ricardo Santos fez o doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em cujo Instituto de Filosofia da Linguagem foi depois bolseiro de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Foi professor na Universidade de Évora e presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Presentemente, é professor na Faculdade de Letras e diretor do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Coordena o grupo de investigação LanCog e é co-editor da revista Disputatioe do Compêndio de Problemas de Filosofia Analítica.Trabalha principalmente nas áreas de metafísica e filosofia da lógica, dedicando-se também ao estudo e tradução das obras de Aristóteles. É autor do livro A Verdade de um Ponto de Vista Lógico-Semântico (publicado pela Gulbenkian) e de numerosos outros ensaios. Interessa-se pelo estudo de alguns paradoxos importantes, pela teoria dos mundos possíveis, pela filosofia do tempo e por lógicas não-clássicas.

 

E se os termos vagos tivessem mesmo fronteiras exatas?

A maioria dos termos da linguagem natural são vagos, quer dizer, parecem não ter limites exatos de aplicação. É costume pensar que a sua aplicação obedece a um princípio de tolerância: necessariamente, se uma pessoa é alta, então essa mesma pessoa com menos um milímetro continuaria a ser alta; se um cozinhado está salgado, então o mesmo cozinhado com menos um grão de sal continuaria a estar salgado. Infelizmente, este princípio parece conduzir a consequências absurdas, como a de que uma pessoa com 1,20m é alta ou a de que um cozinhado sem sal nenhum está ainda assim salgado. É por isso que Timothy Williamson defende que o princípio é falso e que existe de facto um limite exato para a aplicação correta de um termo vago, embora não possamos nunca vir a descobri-lo. O objetivo da apresentação será examinar criticamente a explicação avançada por Williamson para esta nossa ignorância. Defenderei que não se trata de ignorância, pois não há ali realmente nada para ser conhecido.

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