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35.º Encontro de Filosofia | Filosofia e responsabilidade epistémica

Subordinado ao tema Filosofia e responsabilidade epistémica, o 35.º Encontro realizar-se-á no dia 20 de fevereiro de 2021, em Coimbra, em local ainda em confirmação.

Num momento em que se assiste à disseminação deliberada de desinformação, onde se exige certeza ao conhecimento científico, mas, ao mesmo tempo, se relativiza o papel do perito e o papel do conhecimento, importa refletir sobre as questões do método, do erro e da verdade e do impacto social e político da disseminação do conhecimento.

É neste âmbito que se propõe à discussão o papel da Filosofia na reflexão crítica sobre “responsabilidade epistémica”.

À semelhança das edições anteriores, será solicitada acreditação do Encontro como Ação de Formação de Curta Duração (AFCD).

 

PROGRAMA

09h00 Receção dos participantes

09h30 Boas-vindas

09h45 Conferência de abertura

Daniel Innerarity, Diretor do Instituto de Governação Democrática

La sociedad del desconocimiento

 

10h45 Conferência e debate

André Barata Nascimento, Universidade da Beira Interior

Pós-verdade em contexto de aceleração e virtualização da vida social

 

11h30 Intervalo

 

12h00 Conferência e debate

Teresa Morais, Escola Secundária S. Pedro

Filosofia e pensamento crítico

           

12h45 Almoço livre

 

14h30 Conferência e debate

Desidério Murcho, Universidade de Ouro Preto, Brasil

Responsabilidade Epistémica e Liberdade de Expressão

 

15h15 Conferência e debate

Sofia Miguens, Universidade do Porto

O relativismo e a questão da verdade

 

16h00 Conferência e debate

Alexandre Franco de Sá, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Les Liaisons dangereuses: Ciência, Política e Ativismo

 

17h00 Encerramento dos trabalhos

17h30 Assembleia Geral da APF

 

NOTA: em caso de necessidade, o Encontro migrará para formato online.

Breves resumos das comunicações

La sociedad del desconocimiento

A sociedade do conhecimento efetuou uma radical transformação da ideia de saber, até ao ponto de ser possível denominá-la por sociedade da ignorância, ou seja, uma sociedade que é cada vez mais consciente do seu não-saber e que progride, em lugar de aumentar os seus conhecimentos, aprendendo a gerir o desconhecimento nas suas diversas manifestações: insegurança, verosimilhança, perigo e incerteza. Há incerteza quanto aos perigos e consequências das nossas decisões, mas também uma incerteza normativa e de legitimidade.

 

Filosofia e pensamento crítico

Pensar criticamente é uma qualidade intrínseca ao ensino da filosofia. Será assim? Filosofia e pensamento crítico são a mesma coisa ou são coisas diferentes? Será suficiente a aplicação de uma metodologia analítica, clarificadora de problemas, conceitos e argumentos específicos da disciplina de filosofia para promover o pensamento crítico ou será também necessária uma intencionalidade própria e metodologias específicas? Da análise de estudos sobre o ensino do pensamento crítico conclui-se que este deve ser explícito e intencional, ser objeto de prática deliberada e sistemática e que nem todas as estratégias e métodos de ensino são igualmente eficazes na sua promoção. A apresentação de diferentes definições e taxonomias de pensamento crítico, a clarificação das dimensões, capacidades e disposições que o compõem, assim como o modo de o avaliar, deve constituir-se, necessariamente, como um exercício prévio à escolha das melhores estratégias para a sua promoção na aula de filosofia. É por aqui que vamos começar. De seguida partilhamos algumas estratégias de ensino do Pensamento Crítico na aula de filosofia com efeitos significativos na promoção do pensamento crítico.

 

Pós-verdade em contexto de aceleração e virtualização da vida social

Quer a abordagem coerentista à justificação da verdade quer a da correspondência vêem a sua aplicação em apuros num contexto de aceleração social e migração da vida social para os social media e o online em geral. Esta degradação da justificação da verdade resulta numa indiferença normativa à distinção entre o falso e o verdadeiro, reduzidos a instrumentos de persuasão desligada de qualquer referência a um compromisso argumentativo ou a uma confrontação com dados. Esta transformação da nossa relação com a verdade degrada a função mediadora que Habermas e outros teóricos atribuíam à esfera pública. Esta comunicação propõe-se descrever este processo e debater modos de restabelecimento de condições sob as quais seja possível justificar verdade e, dessa forma, também preservar o seu valor social.

 

Responsabilidade epistémica e liberdade de expressão

O ponto de partida desta comunicação é o contraste entre a defesa epistémica da liberdade de expressão, levada a cabo por John Stuart Mill, por um lado, e a defesa daquilo a que designo “responsabilidade epistémica”, por parte de W. K. Clifford: a ideia de que é imoral acreditar seja no que for sem provas adequadas. Como se verá, a liberdade de expressão, sem as restrições da responsabilidade epistémica, não produz os resultados positivos previstos por Mill, mas antes os negativos que Clifford temia. Por isso, uma defesa vigorosa de limites drásticos à liberdade de expressão, intransigente na exigência de responsabilidade epistémica no discurso público e privado, não só não é incompatível com a posição de Mill, como é implicada por ela.

 

O relativismo e a questão da verdade

São muitos os filósofos que nos tempos que correm, sentem uma apaixonada necessidade de falar em público contra o relativismo acerca da verdade. Vale a pena neste contexto olhar de novo para o caso do pragmatista americano Richard Rorty (1931-2007) que aparentemente defendeu tal relativismo. Tendo sido treinado na tradição analítica, moveu-se a certo ponto para fora dessa tradição, criticando-a. Tornou-se mesmo uma “bête noire” para os filósofos analíticos com a sua proclamação de uma ‘pós-filosofia’, que viu como resultado de um pragmatismo levado até às últimas consequências. A “Filosofia e o Espelho da Natureza”, de 1979, é central na obra de Rorty. O livro é um manancial de interpretações extremamente polémicas da história da filosofia, focando autores que vão desde Locke e Kant a Wittgenstein, Heidegger, Quine, Davidson, Gadamer e outros. Mesmo se as leituras de Rorty são criticáveis do ponto de vista da história da filosofia (foram aliás criticadas pelos próprios ‘interpretados’, como é o caso de Davidson, relativamente à teoria da verdade), o conjunto é uma visão desafiadora do estado da filosofia no século XX tardio. Globalmente o livro pretende ser uma crítica à ideia de conhecimento como representação de uma natureza que seria ‘dada’ e da ideia de mente como ‘espelho’ dessa natureza. A intenção de Rorty vai no entanto além da crítica a formas de fazer epistemologia e filosofia da mente: ele ambiciona encontrar um novo lugar para a filosofia na cultura, possivelmente já não chamado ‘filosofia’ (era também essa a sugestão de Heidegger). A finalidade é caracterizar algo como ‘uma cultura intelectual pós-epistemológica’, acima chamada ‘conversa da humanidade’, que persiste uma vez afastadas as presunções de um discurso de comensurabilidade racional universal de todos os discursos. Mas tomemos como fio condutor para um percurso pela obra de Rorty o facto de ele se ver acima de tudo como um pragmatista; tudo aquilo que faz é um retirar de consequências do pragmatismo. Convém ter claro que outros pragmatistas atuais – por exemplo Putnam, ou Susan Haack (cuja versão de pragmatismo é particularmente inspirada por C. S. Peirce), rejeitam absolutamente as consequências que Rorty retira do pragmatismo. Eles pura e simplesmente rejeitam que o pragmatismo conduza a doutrinas relativistas como as avançadas por Rorty, ou às posições sobre verdade e objetividade que ele defende. Vêem o pragmatismo como sendo, desde sempre, uma tentativa de compreender a natureza do inquérito racional – Rorty seria cínico ao não reconhecer este facto, e ao lançar o inquérito racional pela borda fora.

 

 

Palestrantes

Alexandre Franco de Sá

Professor Auxiliar do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Coordenador do Mestrado em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário da mesma faculdade, é Doutor em Filosofia, na especialidade de Filosofia Moderna e Contemporânea, pela Universidade de Coimbra. É Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, Brasil. Autor de mais de quatro dezenas de artigos publicados em revistas e cerca de três dezenas e meia de capítulos de livros, para além de vários trabalhos em atas de eventos. Orientador de inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutoramento, júri de graus académicos, organizador/coorganizador de vários seminários, congressos e encontros, já participou, como conferencista, em inúmeros eventos, em Portugal e no Brasil.  Foi Presidente da Direção da Associação de Professores de Filosofia durante uma década (2006-2016). Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, é membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa.

 

André Barata Nascimento

Professor Associado com Agregação, leciona várias unidades curriculares (Teorias da Justiça, Ética, Direitos Humanos e Política, Epistemologia, entre outras) no Departamento de Comunicação, Filosofia e Política na Universidade da Beira Interior. Investigador na LabCom – Comunicação e Artes. Já foi professor visitante no ISPA e nas Universidades do Estado do Rio de Janeiro e de Fortaleza. Doutor em Filosofia, na especialidade de Filosofia Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Arguente e membro do júri em vários júris de mestrado. Autor de inúmeros artigos em revistas com arbitragem científica e outras, de mais de três dezenas de capítulos de livros e de quatro livros. Organizador de inúmeros colóquios, seminários e jornadas, participou como orador em congressos, conferências e seminários de natureza científica, em Portugal, no Brasil, em Itália e nos Estados Unidos. Orientador de pós-doutoramentos, teses de doutoramento e dissertações e trabalhos de mestrado. Membro de várias organizações científicas como a Sociedade Portuguesa de Filosofia e a Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, é sócio fundador desta última assim como da Sociedade Brasileira de Psicologia Fenomenológica. Foi membro de conselhos editoriais de várias revistas, como a Phainomenon e a Análise e tem desenvolvido atividades de divulgação da ciência. Tem participado como conferencista em atividades de formação para públicos escolares em várias escolas secundárias do país, explorando temáticas relacionadas com o problema do livre-arbítrio, determinismo e cidadania.

 

Daniel Innerarity

Professor catedrático de Filosofia Política, investigador “Ikerbasque” na Universidade do País Basco, diretor do Instituto de Governação Democrática e professor no Instituto Europeu de Florença. Foi professor convidado em diversas universidades europeias e americanas, como a Sorbonne, a London School of Economics e a Universidade de Georgetown. Os seus últimos livros são A Política em Tempos de Indignação (2015), A Democracia na Europa (2017), Política para Perplexos (2018), Compreender a Democracia (2018), Uma Teoria da Democracia Complexa (2020) e Pandemocracia. Uma Filosofia da Crise do Coronavírus (2020). É colaborador habitual do “El País”, com artigos de opinião, e outros meios de comunicação.

 

Desidério Murcho

Atualmente professor de Filosofia no Brasil, na Universidade Federal de Ouro Preto, nasceu em 1965 e estudou na Universidade de Lisboa e no King’s College London. Tradutor de mais de uma vintena de livros de filosofia. É autor de vários livros e artigos, incluindo Lógica Elementar (2019), Todos os Sonhos do Mundo e Outros Ensaios (2016), Filosofia em Directo (2011) e Essencialismo Naturalizado (2002).

 

Sofia Miguens

Professora e investigadora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, dirige o Instituto de Filosofia e o Gabinete de Filosofia Contemporânea. Foi investigadora visitante na Universidade de Nova Iorque e na Universidade de Sydney (Austrália) e professora visitante em Amiens (França). Tem lecionado cursos e feito conferências em Espanha, França, Alemanha, Áustria, Turquia, Suíça, Finlândia, Austrália, Polónia, China, entre outros países. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia e Diretora do Departamento de Filosofia da FLUP. Publicou dezenas de artigos em várias línguas nas suas áreas de especialidade (mente e linguagem, filosofia moral e história da filosofia contemporânea). É autora de nove livros. Os mais recentes títulos, “Uma leitura da filosofia contemporânea: figuras e movimentos” e “The Logical Alien”, que também editou, foram publicados em 2019.

 

Teresa Morais

Professora de Filosofia na Escola Secundária S. Pedro, em Vila Real. Licenciada em Filosofia pela Universidade de Coimbra e Mestre em Relações Interculturais pela Universidade Aberta. Membro do grupo WebPACT da UTAD e do Laboratório de Pensamento Crítico da Unidade de Aprendizagem e Desenvolvimento da UTAD. Tem desenvolvido investigação na área do pensamento crítico no ensino da filosofia com artigos publicados em revistas internacionais e nacionais.

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