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Conceções filosóficas e representações do feminino

Entre fevereiro e março de 2018 realizou-se um ciclo temático intitulado “Conceções filosóficas e representações do feminino: soletrando a tradição filosófica”, orientado pela Professora Doutora Fernanda Henriques e com a colaboração de Maria do Céu Pires.

Somos todos iguais? Existe alguma diferenciação real que tenha por base o género de cada ser humano? Como se entendem os recentes movimentos que defendem a supremacia branca ou aqueles que advogam o apedrejamento de mulheres adúlteras? A discriminação de género é percecionada da mesma forma que o racismo? E o que tem a filosofia a ver com tudo isto?

Foi em torno destas questões que se desenvolveram quatro sessões online, na modalidade de webinar, inteiramente gratuitas e organizadas pela Associação de Professores de Filosofia.

Na primeira sessão, discutiu-se o papel da Filosofia no desenho das representações do feminino e das mulheres. A segunda sessão foi dedicada ao tema “Igualdade, Cidadania e Justiça: A modernidade como momento crítico da construção de uma cidadania excludente das mulheres”. Na terceira sessão, discutiu-se o contributo específico de algumas filósofas contemporâneas para o debate ético. Por fim, na quarta sessão, foram discutidos os temas de género e o Programa de Filosofia do Secundário.

Ao longo da história, a Filosofia contribuiu para a construção de representações sociais sobre a natureza humana, instaurando assimetrias entre o masculino e o feminino. Amelia Valcárcel considera que as mulheres foram heterodesignadas, isto é, “ser mulher é uma heterodesignação uma vez que foram os homens – Filósofos e Teólogos – que definiram o feminino e as mulheres e não elas próprias. Ou seja, as mulheres foram sempre vistas como objeto e nunca como sujeito na caraterização de si mesmas.” Assim se entende por que razão Platão afirmava que “a mulher é um macho castigado” ou que Aristóteles considerava que “a sua existência é um defeito da Natureza”; Espinosa pensava que “é lícito afirmar sem hesitação que as mulheres não gozam naturalmente de um direito igual ao dos homens, mas que elas são inferiores por natureza”  e Rousseau, que abandonou os seus cinco filhos na Roda dos Enjeitados, considerava que “a sua única glória reside na estima do seu marido e no serviço da sua família”. A desconsideração pelas mulheres ao longo da História é bastante prolífica, quando vemos que filósofos como Schopenhauer afirmava que “a mulher é um animal de cabelos compridos e ideias curtas” e, mesmo na psicanálise, Freud salientava que “a mulher reconhece o facto da sua castração e, com isso, ela reconhece também a superioridade do homem e a sua própria inferioridade”. Se tudo isto nos parece já bastante longínquo, convém salientar como algumas destas conceções antropológicas parecem extraordinariamente atuais, com reflexos políticos, expressos na afirmação de Jacques Chirac: “a Carolina do Sul é um dos últimos lugares onde se conserva o sentido de como se deve educar as raparigas. Elas são educadas na ideia de agradar. Tudo é condicionado pela arte de agradar aos homens[i].

E, no entanto, é possível encontrar ao longo dos tempos inúmeros exemplos de mulheres que se notabilizaram na área da Filosofia, como a helénica neoplatónica Hipátia, a esposa de Péricles, Aspásia (veja-se o diálogo Menexeno, de Platão), a polímata Hildegarda de Bingen, a filósofa inglesa Mary Wollstonecraft (que defendia que homens e mulheres são iguais, devendo-se as diferenças à fraca educação que as mulheres recebem) ou a ativista Margaret Sanger.

Fernanda Henriques, com o horizonte de Paul Ricœur e a hermenêutica de Gadamer, fez-nos mergulhar na história da filosofia em busca de raízes para estas conceções antropológicas, sabendo que o androcentrismo da linguagem tem um efeito perverso nesta pesquisa. Ora, “um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve deixar‑se orientar pela ideia de que a dominação masculina não foi universal e pacificamente aceite, mas apenas assumiu o aspecto de parecer ter sido absolutamente aceite.” [ii]

Na Modernidade, surgem alguns autores que contrariam o pensamento de Descartes e Rousseau acerca das mulheres. É o caso de Poullain de la Barre, defensor de uma igualdade entre ambos os sexos, e para quem “Deus une o espírito e o corpo da mulher do mesmo modo que o do homem, e une-os através das mesmas leis. Os sentimentos, as paixões e as vontades realizam e mantêm esta união, e como o espírito não opera de um modo distinto num sexo e no outro, é igualmente capaz das mesmas coisas”. Em 1673 (“De l’egalité des deux sexes”), 1674 (“De l’éducation des dames”) e 1675 (“De l’excellence des hommes”), escreve que “as mulheres estão tão convencidas da sua desigualdade e incapacidade que assumem suportar a dependência em que se encontram e, além disso, acreditam que ela está fundada na diferença que a natureza estabeleceu entre elas e os homens” mas “a desigualdade em relação aos bens e às condições faz muita gente pensar que os homens não são, de modo nenhum, iguais entre si. Se se indaga sobre que razões se fundamentam todas estas opiniões diversas, chega-se à conclusão que só se fundamentam no interesse ou no costume e que é incomparavelmente mais difícil livrar os homens dos sentimentos a que estão submetidos apenas por preconceito do que daqueles que abraçaram por causa de razões que lhes pareceram mais convenientes e mais fortes”.

Neste tema, “Filosofia e Género. Outras narrativas sobre a tradição ocidental”, há muitas autoras contemporâneas cujo pensamento filosófico é digo de registo. Em “Marginalidade e Alternativa” encontramos dezasseis mulheres filosofas para o século XXI, tendo sido destacadas, nestas sessões, filósofas como Adela Cortina, Carol Gilligan e Martha Nussbaum (incluindo um artigo de Maria do Céu Pires sobre esta autora).

Por fim, na última sessão a Professora Doutora Maria do Céu Pires efetuou uma análise dos temas de género no Programa de Filosofia do Secundário, especificando objetivos e conteúdos programáticos (10º e 11º), atitudes e valores, e Metodologias. Debruçou-se ainda sobre os conteúdos de outras disciplinas (Psicologia B, Área de Integração, Formação Cívica) e as Áreas extracurriculares (Clubes, Projetos, Parcerias).

Este conjunto de quatro webinares gratuitos da Apf decorreu integralmente online, através de uma plataforma de videoconferência e os inscritos puderam assistir e interagir com duas especialistas em questões de género através de uma perspetivação filosófica.

[i] Citações de Benoîte GROULT, Cette mâle assurance, Paris, Albin Michelle, 1993.

[ii] Fernanda Henriques (2010), in Concepções filosóficas e representações do feminino: Subsídios para uma hermenêutica crítica da tradição filosófica, Revista Crítica de Ciências Sociais, http://docplayer.com.br/69746512-Concepcoes-filosoficas-e-representacoes-do-feminino-subsidios-para-uma-hermeneutica-critica-da-tradicao-filosofica.html

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